Tríglifo Angular

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Compreenda as regras da arquitetura grega que influenciam a execução do tríglifo angular no entablamento da ordem dórica.

Embora tenha sido a primeira ordem estabelecida e largamente utilizada pelos gregos, a ordem dórica não conquistou a arquitetura romana. Com seu apogeu durante o período clássico, acabou sendo pouco a pouco substituída pela ordem jônica e, consequentemente, pela coríntia. Sabemos dos diversos fatores responsáveis pela transformação arquitetônica clássica de um modo geral, porém, no que se refere à ordem dórica em específico, uma questão de cunho técnico pode ter influenciado para seu desuso. Trata-se da questão do tríglifo angular. Este problema martirizou muitos arquitetos e envolveu todas as construções tipo templo períptero da ordem dórica.

Diagramas representando as três regras referentes ao tríglifo angular na ordem dórica.
Diagramas representando as três regras referentes ao tríglifo angular na ordem dórica.
*Baseado na obra de ROBERTSON, D. S. Arquitetura Grega e Romana. Vide referências bibliográficas.

Espero conseguir apresentar essa questão de forma que fique mais clara possível. Começaremos pelas três regras gregas referentes ao entablamento dórico que geram o tema em discussão. São elas:

  • 1ª regra: Deve existir um tríglifo acima de cada coluna e outro acima de cada intercolúnio.
  • 2ª regra: Os tríglifos acima das colunas angulares devem estar interligados nos vértices, não mostrando métopas ou meias métopas.
  • 3ª regra: a posição de cada tríglifo em relação à coluna e ao intercolúnio deve estar em alinhamento com seus respectivos eixos centrais.
Entablamento do Partenon, Acrópole de Atenas.
Entablamento do Partenon, Acrópole de Atenas. Observe o tríglifos, para obedecer a primeira e segunda regras, acabam por desobedecer a terceira.

Em um primeiro momento, estas parecem regras bem objetivas e facilmente obedecidas, porem, se pararmos para analisá-las com mais cuidado, veremos que há um problema. Não há como obedecê-las simultaneamente.

No primeiro diagrama temos o tríglifo exatamente com a mesma medida da profundidade da arquitrave. Este parece obedecer às três regras: estão ligados pelos ângulos, estão alinhados pelo eixo central das colunas angulares e não há métopas entre eles. Porém, a largura dos tríglifos não permite uma estética adequada em relação às métopas, as quais devem ter faces mais largas que a dos tríglifos. Um aumento proporcional das métopas alteraria o intercolúnio comprometendo toda a fachada.

Quanto ao segundo e terceiro diagramas, os quais consideram as faces dos tríglifos exatamente com a metade da dimensão da profundidade da arquitrave, e portanto, esteticamente corretos, fica evidente que em ambos os casos uma das regras é desobedecida.

Se alinharmos o tríglifo pelo centro da coluna angular, haverá uma métopa nos vértices. Se eliminarmos as métopas, embora a regra 1 interaja com as outras duas, as regras 2 e 3 são conflitantes entre si.

Diagrama das Ordens Dórica e Jônica
Os diagramas mostram as ordens dórica e jônica plenamente desenvolvidas. Observe o friso na ordem jônica, este é contínuo, normalmente com relevos que contam uma história relevante para o contexto da edificação. Quando a coluna coríntia passa lentamente a ser adotada pelos gregos, esta faz uso do entablamento jônico já desenvolvido. Posteriormente, quando os romanos desenvolvem uma gramática arquitetônica própria para a coluna coríntia estabelecendo a ordem coríntia, esta se vale muito mais dos referenciais ornamentais jônicos do que da rigidez construtiva dórica.
Diagrama da ordem coríntia romana
Ordem coríntia romana plenamente desenvolvida.

 

Resolvendo o Problema

Considero muito interessante como os arquitetos gregos foram resolvendo esta questão em seus projetos. E é aí que entra a “elasticidade” das ordens da qual já falei. Embora pautadas sob muita rigidez estética, elas se permitem um “ajuste de regras” para o alcance de um resultado estético que considere o projeto como um todo.

Durante os séculos VII e VI a.C. os arquitetos gregos trabalharam a dimensão das faces dos tríglifos de forma mais livre, para se adequarem às três regras, algo mais próximo ao primeiro diagrama.

Com o aprimoramento da técnica e maior rigidez estética, estabeleceu-se um padrão considerado adequado que passou a ser utilizado a partir do século V a.C.. Este novo padrão estabelecia tríglifos com faces consideravelmente menores que a profundidade da arquitrave.  Com os tríglifos mais estreitos o problema ficou mais evidente e a soluções em cada projeto cada vez mais difícil. Além de alterar a medida dos tríglifos, os arquitetos passaram também a alterar o intercolúnio (espaço entre as colunas) de modo a modificá-lo próximo aos vértices da construção para ajustar todo o conjunto.

Para saber mais veja: Templo de Segesta

A arquitetura dórica da Magna Grécia também também teve que se adaptar a esta questão. Observe a sutileza para a correção da distorção que o dimensionamento do tríglifo causa ao pórtico como um todo. Templo de Concórdia, Período Clássico, 440-430 a.C.
Trajaneum, templo dedicado ao Imperador Trajano em Bérgama, atual Turquia.
Trajaneum, templo dedicado ao Imperador Trajano em Bérgama, atual Turquia. Observe como a ordem coríntia ornamentada dentro do padrão romano do período estabelece um diálogo muito mais próximo à ordem jônica, com liberdade para ornamentação do friso sem a presença de tríglifos e métopas.

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