O Capitel Eólico e sua Contribuição para a Formação da Ordem Jônica

O antigo território eólio foi um emaranhado étnico e cultural. Uma pequena porção do Noroeste da Anatólia*, hoje Turquia. Dentre as etnias que compuseram o povo Heleno antigo, os eólios levantam diversas perguntas sobre sua contribuição para o desenvolvimento da arquitetura clássica, mais precisamente, da ordem jônica.

Mas há uma origem comum para ambas as representações artísticas?

De onde vieram estas influências?

Estas não são perguntas fáceis, de fato, ainda há muito que se descobrir sobre estas culturas antigas antes de defendermos nossas convicções como verdades absolutas. Mesmo assim, considero extremamente importante continuar questionando momentos cruciais do desenvolvimento da arquitetura clássica, além de trazer um novo ponto de vista que nos instigue a novas reflexões.

A arquitetura clássica teorizada e assim nomeada pelos acadêmicos modernos, não é algo instantâneo da cultura grega, tão pouco uma projeção exata da prancha de Serlio**. De maneira que pensá-la como fruto de um longo desenvolvimento que englobe aspectos religiosos, geográficos e culturais parece ser muito mais sensato e extremamente desafiador. Este exercício nos faz retornar no tempo para muito antes do período clássico (século V a.C.) e reviver culturas pouco mencionadas, mas extremamente significativas em meio a este contexto criativo.

Arquitetonicamente falando, a contribuição dos eólios para a arquitetura clássica é muito controversa. Eles construíam sob o mesmo sistema grego geral e desenvolveram uma ordem que chamamos de ordem eólica. Por sua proximidade e intercâmbio com os jônios, muitas vezes sua arquitetura é tratada como jônica primitiva, o que não é correto. São culturas se desenvolvendo de forma paralela, interagindo sim, mas não necessariamente sucedendo uma a outra. O fato dos eólicos terem seus territórios incorporados pelos jônios ao longo do tempo, assim como a força do nome “Jônio”  no oriente antigo, reverberando em diversas outras culturas como origem para os helenos orientais, podem contribuir para este equívoco.

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Originários da região da Macedônia***, os eólios migraram primeiramente para a Tessália**** e então atravessaram o Mar Egeu em direção a Anatólia por volta de 1.000 a.C., se estabelecendo nessa porção de terra cercada pela Mísia (em latim Mysia), ao norte, Jônia e Lídia (em latim Lydia), ao sul. Ocuparam também as ilhas de Tenedos (em turco Bozcaada) e Lésbos. Foram primeiramente dominados pelos Jônios e Lydios, depois  fizeram parte do Reino de Pérgamo já nos últimos séculos antes da era cristã, quando foram finalmente incorporados ao Império Romano.

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Falei em maiores detalhes sobre a origem dos Eólios e sua relação com os outros povos que compõe o povo grego antigo no artigo O Capitel Eólico de Neandria.

A ordem eólica vem intrigando historiadores desde o resgate dos primeiros exemplares. Os capiteis de Neandria podem ser os mais belos, mas há muitos outros que foram encontrados e todos são bem similares. De qualquer forma, o sistema de construção destes capiteis é bem diferente do tradicional jônico, de modo que a partir de uma análise mais profunda, sua similaridade parece se restringir à presença de elementos parecidos com volutas e simetria. Fizemos esta análise no artigo O Capitel Eólico de Neandria e, neste sentido, devemos assentir que não há como comprovar que o capitel jônico é uma evolução do eólico.

Bem, mas se queremos descobrir origens e influências devemos expandir nossos horizontes para além dos helenos. Já que falamos de Grécia Oriental, devemos considerar a proximidade com o Império Persa relevante. Lembremos que todo o território Anatólio era dominado pelos persas, e estes desenvolveram também uma arquitetura extremamente significativa. Se analisarmos seus elementos arquitetônicos encontraremos também o sistema coluna-lintel presente, provavelmente herdado dos assírios, e mais importante, representações de capiteis muito similares tanto com o jônico, como com o eólico, em diversos sítios.

Colunas reminiscentes de Persépolis, antiga capital do Império Persa. Atual Irã, província de Fars. Observe o trabalho dos capiteis com representações que lembram volutas, assim como palmetas muito parecidas com o padrão egípcio.

As datações se enquadram nos séculos VII e VI a.C., a mesma dos exemplares eólicos e jônicos arcaicos em questão. De modo que não fica claro de que lado esta influência foi mais significativa. Mas levanta a questão de que possa ter havido outras fontes de influência anteriores que recaíram sobre uma porção bem mais ampla do Oriente, fazendo com que o tema “voluta” ou “palmeta” fosse amplamente explorado tanto na ornamentação de colunas como em relevos ornamentais de tumbas e outras representações artísticas.

Ornamento persa, Via das Procissões, Persépolis. Interessante como a ornamentação simétrica com formas curvas é recorrente como coroamento de colunas. Os motivos variam e há analogias das volutas com diversos elementos naturais, como conhas do mar, chifres e até mesmo com estes grifos (figuras mitológicas), um exemplar belíssimo que compartilho com vocês.

No que se refere ao capitel eólico, a fonte original parece ser a Fenícia. Um conjunto de cidades-estado instaladas no território que hoje corresponde ao Líbano, Israel, Gaza, Síria e sudeste da Turquia. Os fenícios eram exímios comerciantes e dominaram o mar mediterrâneo. Seu auge de desenvolvimento se deu entre 1200 e 800 a.C., com intensas trocas comerciais com todas as culturas mediterrâneas. Observando diversas representações fenícias seria ilógico não estabelecer uma relação, dada a semelhança do desenho.

Jardim arqueológico de Ramat Rachel, um sítio de origem Fenícia que vem sendo escavado desde o início do século XX, revelando importantes artefatos históricos, entre eles estas representações de capiteis muito similares aos eólicos. Atual território israelita.

Neste momento me parece ser importante trazer um motivo ornamental à luz, já que parece ser a grande chave para uma compreensão mais profunda sobre a representação do capitel eólico. Um tema recorrente que está relacionado com a geografia local e por isso, muito representativo em termos artísticos: o motivo vegetal.

A palmeta como representação estilizada das folhas da palmeira, a flor de lótus também estilizada e o papiro, tão importante para a cultura egípcia, entre outros motivos vegetais, parecem ser o elo artístico fundamental passado de cultura para cultura e repetidamente representados e reinterpretados de modo a criarem ornamentos parecidos, mas ao mesmo tempo com identidades distintas.

Observe as reconstituições abaixo. Primeiro temos o capitel de Neandria, nosso representante eólico; depois duas reconstituições de ornamentação com motivo flor de lótus e papiro do Egito antigo, bem similares, não? E por fim representações do tema palmeta na ornamentação grega. Em todas estas representações há a presença da voluta, como um efeito plástico de estilização dos caules das flores, enfatizando seu desabrochar e estruturando o motivo principal.

1. Reconstituição de Capitel de Neandria por Robert Johann Kodewey.   2. Ornamentos egípcios que representam a flor de lótus, o papiro e formas vegetais do deserto.    3. Um dos motivo vegetais mais explorado pelos gregos, a palmeta, reconstituições de Franz Meyer “Handbook of Ornament”.
Gravura de David Roberts, pórtico do templo de Edfu, Egito. Era ptolomaica, 237 – 57 a.C. Embora seja de um período posterior, as colunas conservam o desenho egípcio.
Esquerda: reconstituição da coluna Apadana por Eugène Flandin, 1840. Persépolis, Império Persa. Direita: reconstituição de coluna jônica do Tesouro de Massália, Delfos, séc. VI a.C. Extraído de Le Fouilles de Delphes, 1894.

Com a prematura incorporação dos eólios pelos jônios, suas representações artísticas cessam em um momento de grande desenvolvimento artístico, dando lugar a representações jônicas que se perpetuaram na história. A evolução do capitel jônico, embora também tenha bebido nas mesmas fontes, parece ter se desenvolvido a partir de outras formas de representação. Vale também levar em conta que o território jônico sempre foi bem mais representativo que o eólico, tanto que a ordem jônica se desenvolveu com considerável similaridade em vastas áreas. Dentre os vários capiteis jônicos arcaicos, alguns exemplares se aproximam significativamente dos egípcios, mantendo a linha de forte influência pelos mesmos temas ornamentais.

* Anatólia atualmente podemos considerar o antigo território Anatólio como a porção atual da Turquia Asiática, ou até mesmo com asia Menor.

** Sebastiano Serlio – 1475 a 1553/55 – Sua versão das ordens clássicas se tornou o modelo fundamental moderno de estudo da gramática clássica arquitetônica. “Tutte l’opere d’architettura et prospetiva” – Veneza, 1537. Para saber mais veja: Lista dos Principais Arquitetos e Teóricos Renascentistas

*** Macedônia território ao centro da Península Balcânica. Na antiguidade império expandido consideravelmente por Alexandre III (filho de Felipe I, O Caolho) mais conhecido com Alexandre Magno. Atualmente, território independente desde 1991, chamado República da Macedônia.

**** Tessália região ao sul da Macedônia, na antiguidade, no período Pré-Homérico, chamada de Eólia, depois incorporada a Hélade. Atualmente uma região administrativa da Grécia.

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