Introdução à Ordem Dórica

A ordem dórica dominou a arquitetura continental grega até o Período Clássico e reinou absoluta nas colônias da Magna Grécia. Foi pouco utilizada pelos romanos e ressurgiu durante o Renascimento Italiano em diversos projetos, em alguns com novas interpretações, sendo resgatada em suas origens durante o Neoclassicismo do século XIX. Vamos conhecê-la melhor.

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Templo E, Selinunte, Magna Grécia, atual Sicília.
Templo E, Selinunte, Magna Grécia, atual Sicília. Veja: Os Templos de Selinunte. Observe as arestas vivas dos fustes. Aqui conseguimos ver em detalhe esta característica da ordem dórica. Lembrando que o padrão dórico é de 20 arestas e o jônico de 24 nervuras. 
Detalhe de Gravura sobre cobre representando a ordem dórica. William Chambers,
Detalhe de Gravura sobre cobre representando a ordem dórica. William Chambers, “A Treatise on Civil Architecture”. Londres, 1759.

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Sua origem caminha junto com o desenvolvimento da arquitetura religiosa grega. Partiremos da teoria do “templo de madeira” que sugere que os Dórios, povos continentais de origem indo-europeia, construíam inicialmente seus templos em madeira e que em um determinado momento passaram a fazê-lo em pedra. Ocorrendo aí uma transferência de material, mas curiosamente, nenhum tipo de adequação técnica.

Com isso, elementos necessários estruturalmente para a construção em madeira foram representados na pedra, mesmo perdendo sua função estrutural original. Supõe-se que esta tenha sido uma forma de preservar a identidade visual do edifício, o que parece compreensível, considerando a importância e a função destes projetos sagrados. Para saber mais veja: O Templo de Hera em Olímpia.

Embora a teoria do templo em madeira seja largamente aceita pela comunidade acadêmica, ainda não pôde ser comprovada de forma física e, portanto, somos levados a considerar o estabelecimento da ordem dórica a partir dos primeiros exemplares em pedra, o que se deu por volta de 600 a.C., dentro do que chamamos Período Arcaico.

É a partir deste momento que ocorre grande evolução estética. Primeiramente vemos edifícios mais robustos com colunas mais largas e baixas. Veja A Basílica de Posidonia. A primeira vista parece que os construtores ainda estavam se adaptando ao novo material. Depois começam a harmonizar melhor as proporções estruturais e os edifícios tornam-se mais esbeltos e equilibrados.


Principais características da ordem dórica:

Ausência de base.

Caneluras separadas por arestas vivas.

Friso do entablamento dividido entre métopas e tríglifos. 


Vitrúvio possui uma abordagem tão profunda a respeito das ordens que propõe características humanas para elas. Sugere a ordem dórica como masculina, um homem mediano bem formado. Ele explica em seu Tratado (livro IV), que mediram a planta dos pés de um homem e sendo esta a sexta parte de sua estatura, transmitiram esta medida para a coluna, de maneira que qualquer que fosse o diâmetro do fuste, a altura da coluna seria seis vezes este diâmetro incluindo o capitel. Com esta referência se construiu o primeiro templo dórico e esta ordem passou a representar a solidez e a elegância de um corpo viril. Os templos de ordem dórica eram normalmente dedicados a divindades do sexo masculino.

Esta abordagem Vitruviana não deve ser levada ao pé da letra, enquanto conceito é válida, e realmente nos faz pensar a respeito, porém há o fator cultural dos povos Dórios que se mostra muito forte no estabelecimento da ordem. Os Dórios eram conquistadores, de maneira que nada mais natural que sua arquitetura refletisse força e solidez. Veja: Introdução à Grécia Antiga e Introdução às Ordens Clássicas.

Esquerda: Interpretação da ornamentação da ordem dórica por Vincenzo Scamozzi. L’idea della Architettura Universale, Veneza, 1615. Gravura sobre madeira. Centro: Arcada de ordem dórica. Gravura a água forte. Vignola “Regola Delli Cinque Ordini D’Architettura”, Roma 1562. Aqui a ordem dórica recebe apenas base com toro e plinto. Direita: Interpretação de pedestal para ordem Dórica de Vignola, “Regola Delli Cinque Ordini D’Architettura”, Roma 1562. Gravura a água forte. Acima do pedestal, base com plinto e toro.

Planta e alçado de entablamento dórico. Estudo de luz e sombra. Friedrich Weinbrenmer, Architektonisches Lehrbuch, 1819. Parte 1, água forte.
Planta e alçado de entablamento dórico. Estudo de luz e sombra. Friedrich Weinbrenmer, Architektonisches Lehrbuch, 1819. Parte 1, água forte.
Capitel do Partenon no The British Museum.

Esteticamente a ordem dórica possui características relevantes que a identificam. Seu fuste é dotado de caneluras separadas por nervuras de arestas vivas. Estas diferem consideravelmente da ordem jônica grega e posteriormente coríntia, dotadas de caneluras separadas por nervuras. O número de caneluras também muda. Para ordem dórica existe um padrão de vinte caneluras.

Já com relação à base, a ordem dórica grega a despreza totalmente. Para saber mais veja: Ausência de Base da Coluna Dórica Grega. Posteriormente, ao reinterpretarem as ordens, os romanos adotam base e/ou pedestais. Estes passam a exercer um papel importante na composição a partir do momento em que se divide espaço com arcos, tendo que manter o equilíbrio da composição. Vignola faz um estudo detalhado da proporção do pedestal dórico. Também apresenta uma representação de arcada dórica somente com base.

Seu entablamento é facilmente identificável pelo friso divido em tríglifos e métopas. O desenho de Friedrich Weinbrenmer nos mostra claramente seu posicionamento, lembrando que, via de regra, as métopas apresentavam esculturas com narrativas mitológicas. Para saber mais Veja: Tríglifo Angular.

Templo de Segesta, um belíssimo exemplar da ordem dôrica, com seu entablamento e frontão bem preservados. Sua construção data de finais do século V (430 a.C.), com perístase de 6 x 14, hexastilo e estilóbato de 23,25 x 57,50m. Veja: Templo de Segesta.
Partenon, Acrópole de Atenas. 432 a.C. Período Clássico, ordem dórica totalmente desenvolvida.
Partenon, Acrópole de Atenas. 432 a.C. Período Clássico, ordem dórica totalmente desenvolvida.

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