Um dos grandes desafios do estudo da história e teoria da arquitetura é identificar e compreender todos os elementos que a caracterizam. De maneira que estudar em detalhes diversos termos arquitetônicos tona-se uma rotina. Quando dispomos de fontes confiáveis e boas traduções, o trabalho flui melhor e o resultado torna-se muito mais satisfatório.

Como os termos utilizados atualmente provém de diversas traduções e contextos, é importante ressaltar que existem diferentes interpretações. A maioria das fontes se apoia na interpretação moderna da arquitetura, enquanto fontes mais conservadoras, tendem a se restringir à interpretação dos tratados, principalmente o de Vitrúvio. E não é raro encontrar diferentes nomenclaturas e até mesmo significados para um mesmo termo.

Nossa proposta para este glossário é ir além das definições padronizadas e pouco detalhadas e oferecer um parecer mais rico acerca dos termos mais importantes para a pesquisa e conhecimento em história da arquitetura.


  • Abside: Nicho semicircular e elemento arquitetônico essencial da basílica paleocristã. A abside principal está localizada na cabeceira do coro, de frente para a nave principal e normalmente com pé-direito mais baixo. Na basílica romana civil abrigava a tribuna e na basílica paleocristã o santuário. Podem haver absides secundárias nas naves laterais.
  • Esquerda: Folha de acanto natural Acantuhus mollis. Centro: Detalhe de gravura sobre cobre de Fréart de Chambray, Paris, 1950. Observem as minucias do desenho na representação das folhas. Direita: Gravura sobre madeira de Philibert de L'Orme, Paris, 1568. Referência á ordem compósita. ornamentação com toro, escócia e astrágalos decorados com motivos vegetais.
    Esquerda: Folha de acanto natural Acantuhus mollis. Centro: Detalhe de gravura sobre cobre de Fréart de Chambray, Paris, 1950. Observem as minucias do desenho na representação das folhas. Direita: Gravura sobre madeira de Philibert de L’Orme, Paris, 1568. Referência á ordem compósita. ornamentação com toro, escócia e astrágalos decorados com motivos vegetais.

    Acanto um dos motivos vegetais mais importantes da ornamentação grega e consequentemente da arquitetura clássica. Inspirou não só o famoso capitel coríntio como também inúmeros ornamentos arquitetônicos. Enquanto os gregos estilizaram o acanto de forma a ressaltar suas linhas principais e dispensaram maior cuidado com a continuação e origem dos caules na composição, os romanos ressaltaram o rebuscamento da composição sem tanto cuidado com a continuação. Mesmo entre capitéis coríntios gregos e romanos parece haver considerável diferença no que se refere a detalhes de origem das folhas e sua composição. Na verdade há mais de uma variedade desta planta e, enquanto os ornamentos gregos fazem maior uso do Acanthus spinosus, com folhas mais alongadas, os romanos se inspiram no Acantuhus mollis, com folhas mais largas. Naturalmente estas variações são muito difíceis de serem notadas diante de um padrão de estilização. Além do acanto há uma série de outros vegetais que emprestam suas formas para a ornamentação, muitas vezes sendo confundidos ou ficando ofuscados pela fama que o acanto conquistou. Sem dúvida sua plasticidade é indiscutível e, além dos capitéis, gerou uma série de ornamentos lindíssimos para a arquitetura clássica. No estilo Românico suas formas foram bem mais estilizadas e depois, durante o Renascimento e Barroco, voltou a ser representado de forma mais natural.

  • Acrotério
  • Ágora: Grande mercado aberto e ponto central da vida social na Grécia Clássica.
  • Anamorfose: nas artes visuais é um recurso de perspectiva onde a obra apresenta diferentes efeitos visuais de acordo com o posicionamento do observador. Trata-se de um efeito perceptível somente in loco, não podendo ser observado em sua plenitude através de fotografias ou reproduções. Extremamente complexo e alcançado com êxito por poucos artistas,  foi amplamente estudado por Piero della Francesca em seu tratado “De Prospectiva Pingendi” (Na Perspectiva da Pintura) de 1482. Porém já era utilizado antes de sua teorização, como podemos observar na obra de  Leonardo da Vinci, “A Anunciação” de 1472, hoje exposta na Galeria Uffizi (Galleria degli Uffizi), Forença. Este talvez seja um dos melhores exemplares de anamorfose para estudo. A famosa pintura tão amplamente analisada por historiadores da arte, apresenta uma composição sem sentido com personagens em posições estranhas e distorções físicas. O segredo consiste no ângulo de observação. Originalmente a obra foi confeccionada para ser observada debaixo para cima e da direita para a esquerda, ganhando então a harmonia desejada. Para mais detalhes veja Anamorfose na “Anuncciazione” de Leonardo.
  • Ânulos: Anéis estreitos. Utilizados na base do capitel dórico.
  • Arcada: Fila ininterrúpta de arcos apoiados sobre colunas ou pilastras.
  • Arco e suas partes
  • Arco Cego: arco sobreposto a uma superfície, sem abertura ou passagem. Característicos da arquitetura Românica Italiana, usados com frequência em série, se repetindo por toda a extensão de uma parede.
  • AstragalosAstrágalo: Moldura boleada em curvatura simples (gola simples), normalmente esculpida com motivo de contas de rosário.
  • Antefixa: Disco de terracota que remata as telhas convexas do templo clássico.
  • Atlantes (em romano “telamones”): Colunas ou suportes esculpidos em forma de figuras masculinas. O equivalente feminino são as Cariátides.
  • Átrio: Espaço aberto, na basílica paleocristã o átrio é o espaço de entrada, circundado por pórticos que abrigavam os cristãos não batizados.
  • Bandas: o mesmo que faixas.
  • Bucrânio: Representação do crânio bovino. Foi um ornamento muito utilizado pela arquitetura romana, normalmente unidos por guirlanda.
  • Canefora: A versão das cariátides com cestas na cabeça.
  • Canelura: Estrias ou sulcos nos fustes das colunas ou dos pilares antigos. Na coluna dórica são do tipo arestas vivas; na coluna jônica e coríntia, nervuras.
  • Capiteis: Finalização da coluna clássica. Parte da coluna que recebe o entablamento. São cinco os capitéis clássicos: capitel toscano, capitel dórico, capitel jônico, capitel coríntio e capitél compósito.
Capiteis das cinco ordens, um dos elementos de melhor identificação das ordens clássicas. Toscano, dórico, jônico, corintio e compósito.
Capiteis das cinco ordens, um dos elementos de melhor identificação das ordens clássicas. Toscano, dórico, jônico, corintio e compósito.
  • Caveto: Pequena moldura côncava, em geral com um quarto de círculo.
  • Cimácio: Friso ondulado.
  • Cimalha: Moldura que remata os telhados do templo grego. Recebe as gárgulas.
  • Cipollino1-200Cipollino: mármore usado pelos romanos, com desenho que remete a fatias com diferentes tonalidades entre verde e branco.
  • Classicismo: segundo Giulio Carlo Argan: “… este aplica-se aos períodos em que a arte clássica é assumida como modelo e imitada. De fato o classicismo, assumindo como modelo a arte do passado, não somente implica a desconfiança na capacidade da arte de exprimir a realidade histórica presente, mas também, reduzindo a arte à imitação de modelos históricos, anula o valor da criatividade que é o propósito da arte clássica…” . História da Arte Italiana volume I.
  • Clerestório: Janelas sobre as arcadas da nave central na basílica paleocristã. Proporcionavam entrada de luz para a nave.
  • Conta e Rosário: Motivo ornamental muito comum na ornamentação clássica, por formar uma curvatura simples, normalmente ornamenta os astrágalos.
  • PortaNorteErecteu1Consolo: Elemento em balanço em forma de “S” tendo uma extremidade maior que a outra.
  • Cornija: Moldura horizontal que liga parede ao teto. Na arquitetura clássica é a moldura da divisão superior do entablamento, que recebe o telhado.
  • Crepidoma: Parte do Estereóbato do templo grego que fica acima do nível do solo, normalmente formado por três degraus.
  • Deambulatório: em latim ambulatorium, refere-se na arquitetura cristã como a passagem que circunda uma área central, mais precisamente à passagem que acompanha a abside circundando o coro.
  • Dentículos: Friso das ordens jônica e coríntia que imitam as pontas das traves dos edifícios arcaicos de madeira.
  • Eclestório: Janelas que se abrem da nave principal nas fachadas longitudinais das igrejas paleocristãs, permitindo a entrada de luz diretamente por cima da cobertura das naves laterais.
  • Êntase: segundo Giulio Carlo Argan “… no tipo original, o templo dórico, a coluna é afunilada, isto é, vai se estreitando para cima de forma que seja mais evidente o ponto em que o empuxo se contrapõe ao peso da arquitrave; o fuste em tronco de cone é percorrido em todo o seu comprimento por largas caneluras que forma arestas vivas, de modo que a gradação do claro-escuro sobre a larga curvatura possa se refratar no ritmo claro-escuro mais frequente das concavidades, intensificando-se ao longo do gume afiado e quase transparente das arestas; na parte mediana o fuste é levemente aumentado(êntase), para dar a ilusão da reação de uma matéria elástica à contraposição das forças superiores e inferiores…” História da arte Italiana volume I. / Veja nosso artigo Êntase.

Glossario-CapitelJonico

  • Escócia: Moldura côncava, normalmente empregada entre dois toros.
  • Estereóbato: Base do templo grego dividido em: Alicerce (parte que fica abaixo do solo) e Crepidoma (parte que fica acima do solo).
  • Estilóbato ou Estilobata: Parte externa do topo do crepidoma, de onde parte a base da ordem. As dimensões da área dos templo normalmente são medidas pelo estilóbato. Seu propósito no templo de madeira antigo era elevar a construção para que as colunas não fossem acometidas pela umidade do solo.
  • Estofo: Parte almofadada do capitel jônico que repousa acima do equino e apoia o ábaco.

Glossario-DoricoJonico2

  • Estuque: Revestimento aplicado ao material construtivo para dar acabamento. Na antiguidade era normalmente feito de pó de mármore.
  • google-maps-icone-baixaEubélia: Ilha grega localizada perto do Continente, na altura da Crécia Central.  Desde tempos remotos foi explorada pelos romanos como fonte do mármore cipollino.
  • Faixa: Moldura plana e simples. Muito importante para o entablamento jônico clássico, normalmente apresentando três faixas em três níveis.
  • Filete: Moldura plana, mais estreita do que a faixa, empregada para separar molduras curvas mais largas numa golas1cornija ou base.
  • Friso: Banda plana entre cornija e arquitrave, de acordo com a ordem recebe diferentes acabamentos. Por exemplo: tríglifos para ordem dórica e faixas em níveis para ordem jônica.
  • Fuste: Corpo da coluna clássica. Normalmente com acabamento em caneluras na arquitetura grega e podendo ser totalmente liso na ordem toscana grega e na arquitetura romana em diante.
  • cornija dóricaGárgula: Escoadouro da água da chuva que impede as paredes externas de se molharem. No templo clássico em forma de cabeça de leão.
  • ornamentos em terracotaGuilhochê: Ornato composto por duas ou mais faixas entrelaçadas com espaços circulares vazios no centro.
  • Golas Retas
  • Golas Reversas
  • Gotas: Pequenos troncos piramidais colocados sob os mútulos.
  • Hecatompedon: nome dado ao templo com medida de 100 pés gregos.
  • Hecatompedon: nome dado ao templo com medida de 100 pés gregos.
  • Maciço: Áreas de parede entre portas, janelas ou aberturas. Podem ser combinados ou decorados com pilastras, meias-colunas e colunas de três-quartos.
  • Modilhão: Ornamento da cornija mais comum nas ordens coríntia e compósita. Pequeno consolo ou mão-francesa na qual se apoia o lacrimal.
  • Moldura: Contorno contínuo bem definido aplicado ao bordo ou superfície de um elemento arquitetônico.
  • Nártex: Corredor transversal a nave da Igreja Paleocristã, marcando sua entrada.
  • Ordens Clássicas
  • Óvalo: Motivo ornamental para moldura em forma de um quarto de círculo.
  • Palestra: 
  • Palmeta: Motivo de ornamentação vegetal.
  • Pastofórios: Ambientes nas extremidades das naves laterais (extremidades leste, já que a orientação é muito importante também para a basílica paleocristã). Denominados prothesis (norte) e diakonikon (sul).
  • Poro: Calcário mais grosseiro que o mármore.
  • Pórtico: Galeria com colunas. Giulio Calro Argan refere-se ao pórtico de forma mais ampla quando fala da arquitetura helenística “…galeria com colunas que na cidade helenística aparece em todos os lugares (stoa): no exterior como recinto de praças e como articulação entre diversos corpos de construção; no interior dos edifícios públicos e privados, como recinto de pátios e ligação interna entre os lados da construção.” História da Arte Italiana Volume I. / De forma mais específica o pórtico é um dos principais elementos do templo clássico. O número de suas colunas e seu intercolúnio estabelecem a proporção e a estética do edifício.
  • Pórtico Pergameno: O nome provem da famosa Stoa de Átalo, em Atenas, construída pelo rei Átalo II de Pérgamo, como um presente à cidade de Atenas. Trata-se da galeria com colunas onde há duas ordens sobrepostas, dórica e jônica.
  • Roseta: Ornato floral de forma circular.
  • Sófito: Parte de baixo da arquitrave na porção que não está apoiada sobre a coluna.
  • Stoa: Galerias formadas por longas colunatas (pórticos) para circulação. Edifícios que compunham a Ágora, na Grécia Clássica, porém sua construção foi mais privilegiada no período helenístico.
  • Sucessionismo: O termo significa a evolução através para passagem de uma cultura ou fé para outra. Este conceito foi usado nos afrescos das paredes da Capela Sistina, no Vaticano, para demonstrar que a Igreja Católica é a herdeira da “fé verdadeira” e que todos os outros credos anteriores só existiram a fim de prenunciarem o Catolicismo. Be Secrets: Michelangelo’s forbidden messages in the heart of the Vatican“.enjamin Blech e Roy Doliner apresentam este argumento em sua análise da Capela Sistina na obra “The Sistin
  • Telamones: O mesmo que “atlantes”.
  • Templo Grego e suas classificaçõesin antis, prostilo, anfiprostilo, períptero, díptero, pseudodíptero, monóptero, tholos. Quanto ao pórtico: Dístilo in antis, Tetrástilo, Hexástilo, Octástilo, Decástilo, Dodecástilo, Pentastilo e Eneástilo.
  • Tholos: Templo circular. O mesmo que “Tholoi”.
  • Tênia: Filete, faixa estreita saliente.
  • Toro: Aumento da base ática.
  • Transepto: Corredor transversal às naves na extremidade da abside. Na basílica paleocristã também chamado transepto romano, por estar diretamente ligado à/às absides, conforme esquema acima da basílica de São Pedro em Roma (anterior a atual).Base de coluna do Propileus. Acrópole, Atenas. O diagrama acima tenta exemplificar de forma bem clara para que todos possam identificar de imediato um ornamento em gola.
  • Tríglifo: Elemento do friso da ordem dórica que possui com sulcos verticais.
  • Tróquilo: Contorno da base ática.
  • Voluta: Elemento arquitetônico em espiral. Parte essencial do capitel jônico.