Arco e Ordens – A Composição que Mudou a Arquitetura

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Os romanos uniram o arco às ordens clássicas desenvolvendo uma nova gramática arquitetônica. Compreenda esta composição e sua contribuição para a arquitetura ocidental.

 

Detalhe da fachada do Templo de Adriano em Éfeso, atual Turquia. 138 d.C. Embora os romanos tenham, de certa forma, mantido sua arquitetura religiosa dentro do modelo grego, temos inúmeros exemplos de edifícios onde foram executadas variações interessantes. Este pequeno templo dedicado ao Imperador Adriano é um deles. Os romanos desprezaram o frontão tradicional grego introduzindo o arco.

Para começar farei uma consideração a respeito do arco dito arco romano. O arco de volta inteira ou arco perfeito, já estava plenamente desenvolvido e era largamente executado pelos etruscos quando da unificação romana. Mas este também não foi uma invenção etrusca, pois já era conhecido de povos da Mesopotâmia e Ásia Menor, entretanto foi a natureza guerreira dos etruscos que fez com que desenvolvessem uma arquitetura de fortificação que exigiu o arco para abrir passagens em suas grandes muralhas de pedras.

Tendo como certo que os romanos herdaram o arco dos etruscos, e que estes últimos também desenvolveram fortes relações com os gregos, uma questão importante vem a tona:

Por que o arco se fez necessário para os romanos e não para os gregos?

Bem, podemos dizer que a arquitetura grega se verticalizou pouco, seus edifícios possuíam não mais que dois pavimentos. Muito provavelmente porque seu modelo construtivo atendia às suas necessidades.

Visualize o modelo construtivo fundamental grego, simples em sua essência, linhas retas, ladeado por pórticos, estrutural e eficientemente resolvido através de uma arquitrave contínua.

Porém, quando transferimos este modelo para as necessidade de um Império de proporções continentais, ele deixa de ser eficiente.

E é neste momento que os romanos incorporam o arco e promovem uma grande transformação arquitetônica.

 

O Arco de Volta Inteira

Usando uma reconstituição de um dos arcos do Tabulário de Roma, podemos compreender melhor sua função estrutural. A construção se inicia com a elevação dos pilares laterais de sustentação (pés direitos), estes eram finalizados por pedras chamadas impostas, que recebiam o arco propriamente dito.

arco tabulário Roma completoAs impostas normalmente tinham detalhes de acabamento em sua parte superior, também chamados de capiteis. A partir daí o arco era composto por pedras em forma de cunha. A primeira pedra de cada lado do arco que se apoia nas impostas,  chama-se saimel e a última, que trava o arco é a chave de abóbada.

Para garantir a colocação das pedras até o travamento, eram usados suportes em madeira com o ângulo exato do arco que seria construído, tanto por baixo, como por cima da estrutura. Arcos com cordas maiores como nos aquedutos e pontes, normalmente recebiam estruturas mais complexas de sustentação, porém o princípio de construção era sempre o mesmo. A partir do momento que o arco é travado com a chave, as forças tendem a contorná-lo, descarregando nos pilares laterais. A face frontal e posterior do arco é chamada arquivolta ou testa. O lado inferior é o intradorso e o exterior é o extradorso.

A partir do momento que a técnica foi dominada, outros tipos de arco foram desenvolvidos incluindo seu desdobramento em diversos tipos de cúpulas e abóbadas.

 

A Composição Arco e Ordens

Os romanos promoveram a composição arco e ordens estabelecendo diferentes papéis, porém totalmente interligados um ao outro. O arco veio preencher a função estrutural, antes a cargo das ordens, e estas sofreram adaptação para compor a ornamentação dos edifícios.

Este foi um momento crucial para a arquitetura clássica, pois é a partir deste ponto que ocorre uma combinação entre estrutura e ornamento.

Primeiro devemos tomar cuidado para não tratar as ordens na arquitetura romana de forma simplista. Esta “função ornamental” inclui todo o equilíbrio estético da construção.  São elas que controlam todas as proporções, tornando a edificação arquitetonicamente expressiva. Controlar esta estética de forma estruturalmente eficiente exigiu muita astúcia e conhecimento por parte dos arquitetos romanos.

Aqueduto de segóvia, Espanha. Um ótimo exemplo de domínio no uso do arco.
Aqueduto de segóvia, Espanha. Um ótimo exemplo de domínio no uso do arco. Observe o encaixe cuidados das pedras no intradorso fazendo o travamento do arco.

Se você quiser saber mais sobre o aqueduto de Segóvia veja: Aqueduto de Segóvia

Seção de arcada do Coliseu, Roma.

Como exemplo, vamos analisar o Coliseu, e cito como referência as obras de John Summerson A Linguagem Clássica da Arquitetura e a D.S. Robertson, Arquitetura Grega e Romana para quem quiser se aprofundar no assunto.

O Coliseu é composto por módulos arquitetônicos, cada qual formado por um arco perfeito totalmente travado. Este termina dos dois lados nas impostas, recebendo o peso distribuído por ele e o levando até a base.

Veja que o conceito: base – coluna – arquitrave sobrevive. Só que agora estão emoldurando o arco. Para tanto o arquiteto teve que encontrar a proporção perfeita afim de não descaracterizar as ordens e ao mesmo tempo enquadrá-las na composição.

A altura das impostas (a) determina a altura total do arco (c). A altura total do arco (c) determina a altura do entablamento (b) e consequentemente toda a proporção das colunas. O espaço entre as colunas (e) determina a corda do arco (d). Modificando um elemento, modifica-se tudo.

Observe também que a ordem utilizada não altera o conceito, mas é introduzido o pedestal, uma saída inteligente já que a proporção das colunas deve ser respeitada.

Para saber mais sobre o Coliseu veja: As Ordens Sobrepostas do ColiseuO Coliseu Romano

Mas por que os romanos fizeram questão de manter o uso das ordens em sua arquitetura se não havia mais necessidade para tal? Ou ainda, por que importar um conceito estrangeiro ao invés de migrar para um modelo totalmente novo?

Várias justificativas são amplamente aceitas. Primeiro podemos dizer que era notória a profunda admiração da arquitetura grega pelos romanos. Também é fato que incorporar a arquitetura de um povo conquistado em sua própria arquitetura, ditando as regras deve ter feito muito bem ao ego romano. Mas bem mais plausível, considero a justificativa de que os romanos tenham querido transmitir a sacralidade da arquitetura religiosa grega para suas próprias construções, a fim de torná-las mais importantes e respeitadas independente de sua função.

Este novo padrão construtivo abriu caminho para que os romanos se tornassem mestres da engenharia civil e transformou sua arquitetura em um instrumento do governo. O conjunto arco e ordens desdobra-se na solução de projetos de basílicas, arcos triunfais, banhos, ou seja, tudo que envolvia a expansão do império e sua vida pública.

Finalizamos com os arcos do Coliseu em detalhe, reafirmando a eficiência da combinação arco e ordens para a arquitetura modular romana.

Coliseu Romano Amphitheatrum Flavium, Roma, 72 a 80 d.C.

 

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